Review | Indiecação: Gone Home


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Gênero: Jogo eletrônico de aventura |  Prêmios: VGX: Melhor Jogo Independente, VGX: Melhor Jogo para PC, BAFTA Video Game Award: Jogo Estreante.

Minha paixão pelas palavras sempre foi algo muito explícito, seja lendo ou escrevendo, sempre fiz questão de dar a elas um grande espaço na minha vida. Talvez por isso eu tenha escolhido o curso de Letras na faculdade.

Mas mesmo um amante das palavras precisa reconhecer que elas nem sempre serão capazes de descrever algumas experiências que vivenciamos e, mesmo que possam ser descritas, elas simplesmente não conseguirão exprimir a intensidade de vivenciar tal experiência.

Sinto que não estarei sendo justa neste review, exatamente pelo fato de que jogar Gone Home se inclui nessa categoria de experiências que não podem ser descritas com palavras. Mas não poderia deixar de escrever sobre este game, afinal, eu amei tanto jogar que, quando acabei, queria sair batendo na porta das pessoas e perguntando: “Você tem tempo para ouvir a palavra de Gone Home?”. Mas vou tentar ao máximo evitar spoilers para não estragar o game para vocês.


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Você provavelmente já ouviu falar sobre este jogo. Ele é o famoso primeiríssimo lançamento do estúdio The Fullbright Company, empresa fundada em 2012 por Steve Gaynor, Karla Zimonja e Johnnemann Nordhagen. Os três já haviam trabalhado juntos na 2K Games em Minerva’s Den, DLC do game BioShock 2.

Uma das coisas que mais chamaram a atenção para jogar é o fato de se tratar de um jogo feminista e que aborda a temática LGBT. Quem me conhece sabe que eu amo uma boa história, até mesmo por isso jogos do tipo shooter não costumam ser meus favoritos, então me apaixonei de cara por este título.

A maior parte da graça de jogar Gone Home está, primeiro, na investigação que você precisa fazer para conseguir descobrir do que se trata a história. O Pedro costuma me zoar por eu sempre explorar todos os elementos do cenário, eu quero interagir com tudo! Mas essa curiosidade veio a calhar em Gone Home, assim como a paciência. O game é repleto de textos e documentos que formam uma espécie de quebra cabeça para desvendar a história. Tudo é bastante subjetivo, tudo se baseia na exploração do local para descobrir o que aconteceu na sua ausência, por isso os menos pacientes podem se entediar facilmente.

Além disso, uma das qualidades do game é a experiência íntima e pessoal que ele proporciona. Todos os elementos presentes nos cenários importam para a construção da história, até mesmo por isso qualquer comentário pode ser um spoiler em potencial – por isso eu recomendaria ler o menos possível sobre o jogo antes de jogar. No entanto é possível compartilhar algumas informações sem estragar o clima de investigação: o game é ambientado na década de 90 – mais precisamente 1995 – e, com uma visão em primeira pessoa, você controla Kaitlin, uma garota de 20 anos que estava fazendo intercâmbio pela Europa e, ao chegar na casa que sua família se mudou recentemente, numa madrugada chuvosa, não encontra ninguém lá.


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O grande foco do jogo está na irmã de Katie, Samantha, por isso quando você interage com objetos importantes, um audiolog é ativado, descrevendo passagens do diário de Sam. Através de documentos, cartas, papel jogado no lixo, fotos e outros itens também é possível conhecer um pouco mais sobre a mãe, o pai e Oscar Masan, tio do pai de Sam. Mas nada é entregue de bandeja; Gone Home joga a responsabilidade de juntar as peças do quebra-cabeça para o jogador.

Em Gone Home, apesar da protagonista não falar, ela se manifesta sutilmente quando interage com determinados objetos. Em certo momento pegamos uma folha de caderno e, quando as coisas começaram a ficar constrangedoras ( ͡° ͜ʖ ͡°), a leitura parou sozinha. Quando tentei pegar a folha de novo, Katie se recusou a ler.

Outra finalidade da exploração dos cenários é traçar o perfil dos personagens. Como em momento algum interagimos diretamente com nenhum dos membros da família, é através dos objetos pessoais destes e seus documentos que aprendemos mais sobre suas personalidades e histórias. Na sala de estar, por exemplo, encontramos várias fitas cassete, boa parte delas contendo episódios da série X-files. Nesse mesmo cenário encontramos uma embalagem de pizza vazia, latas de refrigerante, uma fortaleza feita de almofadas e um livro sobre espíritos e poltergeists. Viu? Os adolescentes já faziam maratonas de séries muito antes do Netflix.


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Já no andar de cima, encontramos o que parece ser o quarto de uma adolescente rebelde. Somente neste cômodo já é possível encontrar revistas relatando a morte de Kurt Cobain, folhas de caderno contendo conversas entre de duas amigas em sala de aula e uma advertência escolar por comportamento inadequado.

Uma das características marcantes de Gone Home são as referências que o jogo faz aos anos 90 - desde Super NintendoTartarugas Ninja e Street Fighter até Pulp FictionEarth Wind & Fire e X-files.

Como nasci em 1997, não posso dizer que foi nostálgico para mim (apesar de eu ser fã de muitas das coisas mencionadas), mas tenho certeza que quem viveu nessa época ficaria contente em ver tantos elementos presentes.

Apesar de não ser um jogo de terror, Gone Home passa uma atmosfera bastante aterrorizante. Não sei se porque eu tinha feito uma maratona tentando desvendar a demo de “Resident Evil 7” pouco antes, ou se por conta da tempestade que cai enquanto estamos explorando a casa, mas o tempo todo eu sentia que estava em perigo. Mas não, nada de “Welcome to the Family, son” aqui. Enquanto você desbrava ambientes novos você sente aquele arrepio percorrer sua espinha, mas assim que as luzes se acendem e você começa a descobrir o que de fato ocorreu, é até engraçado lembrar que você estava preocupado com algum serial killer. A história, infelizmente, é extremamente real e palpável. Uma interpretação minha para o clima de terror é que talvez passar pelo que a Sam passou é tão terrível quanto lidar com monstros da ficção. Não quero soltar um spoiler, mas quando jogarem, entenderão o que eu quero dizer.


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Depois de se mudar, Samantha encontrou dificuldades para se ajustar a sua nova escola, mas, eventualmente, fez amizade com outra garota, Yolanda “Lonnie” DeSoto. A amizade era regada a Street Fighter, punk, grunge e ambas se engajaram no crescente movimento Grrrl Riot. O jogo apresenta músicas das bandas riot grrrl Heavens to Betsy e Bratmobile. Depois de mostrar o jogo no Grrrl Frontal Fest, um festival Riot Grrrl de Portland, o game atraiu a atenção de uma banda local, a Youngins, que passou a fornecer a música para Girlscout, a banda fictícia no jogo. O jogo é acompanhado por uma trilha sonora original composta por Chris Remo, com mais de 30 minutos de música que acompanham o gameplay.

Lançado para PlayStation 4Xbox OneMicrosoft WindowsLinux e Mac OS Classic, o game possui jogabilidade muito simples e intuitiva, qualquer pessoa conseguirá jogar sem dificuldades. Além disso, o game está bem acessível, graças à tradução em português produzida pelo Jogabilida.de. A única coisa que deixa a desejar é a sua curta duração, o jogo não dura mais de 3h, mas consegue ser tão intimista quanto um livro ou um filme.

Encerro o review informando que não se trata de fato de um review e sim de uma recomendação. Então joguem. Joguem e vivam essa experiência rara de jogo por si próprios. Percebam que muitas vezes grandes empresas não são capazes de fazer jogos tão marcantes quanto a Fullbright, que contou com apenas 4 funcionários, de realizar algo tão extraordinário no cenário de games. Uma história cotidiana pode ser tão ou mais intensa que uma ficção medieval, científica ou qualquer outra situação que nos permite sentir o não-real. Muitas vezes menos é mais.

Compre aqui: Steam | PSN (Gratuito na PS Plus até 05/07) | Xbox Live 

COMENTÁRIOS

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A Casa de Vidro,1,A Colina Escarlate,1,A Espada do Verão,1,A Garota Dinamarquesa,1,A Garota do Trem,1,A Menina Distraída,1,A Noiva Fantasma,1,A Saga do Bruxo Geralt de Rívia,2,A Toca das Fadas,1,A Torre Negra,2,A Última Era,1,Alan Goldsher,1,Alexandra Bracken,1,Alice Através do Espelho,1,Amazon,1,AMC,3,American Horror Story,1,Amnesia,1,Ana Cristina Rodrigues,1,Android,2,Andrzej Sapkowski,1,Animacoes,6,Animais Fantásticos e Onde Habitam,2,Anna Fagundes Martino,1,Antologias,1,Apenas um Show,2,Arkane Studios,1,Arqueiro,1,Arrow,1,Artigos Cinema,4,Artigos Jogos,3,Artigos Literatura,12,Artigos Música,1,Artigos Séries,4,As Gêmeas do Gelo,1,Back To The Future,1,Batman,2,Batman Day,1,Batman: Arkham VR,1,Bear Grylls,1,Bertrand Brasil,2,Bethesda,1,Bienal do Livro 2016,3,Biohazard,1,Blindspot,2,Blood and Wine,1,Bob Dylan,1,Book4You,1,Branca dos Mortos e os Sete Zumbis,1,Bruno Bock e Rolandinho,1,Capitão Planeta,1,Carlos Fleury,1,Carol Rossetti,1,Cartoon Network,1,CD Projeckt RED,2,Chameleon Circuit,1,Charlie Choo-choo,1,Christopher Lloyd,1,Chromecast,1,Chuck Wendig,1,Cinema,21,Clara Madrigano,2,Companhia das Letras,1,Contos,1,Contos do Dragão,1,Cores,1,Cosplay,1,criticas-cinema,3,criticas-series,28,Cthulhu Virtual Pet,1,Curiosidades,1,CW,8,DarkSide,1,Daydream,1,DC,13,DC's Legends of Tomorrow,1,De Volta Para o Futuro,3,Dia da Toalha,1,dia das crianças,7,Dia do Baterista,1,Dia do Orgulho Nerd,1,Dishonored 2,1,Disney,1,Doctor Who,16,Douglas Adams,1,EA Acess,1,EA Games,1,Editora Aleph,1,Editora Dame Blanche,1,Editora DarkSide Books,1,Editora Draco,7,Editora Hedra,1,Editora Lendari,2,Editora Mundo Uno,1,Editora Novo Conceito,2,Editora Record,3,Editora Selo Jovem,6,Ensaio Sensual,1,Especial Natalino,1,Estilo,1,eventos,3,Fábio Yabu,1,Fear The Walking Dead,1,FML Pepper,1,Fotografia,1,Galera Record,1,Game of Thrones,1,Gameplay,1,Games,4,Géssica Marques,2,Gilmore Girls,1,God Hand,1,Gone Home,1,Google,1,Google Wifi,1,Guardiões da Galáxia,1,Guilhermo Del Toro,1,Halloween,1,HarperCollins,1,Harry Potter,4,Heroes,2,Heroes Reborn,2,Hijab,1,HOP,1,Horror em Gotas,1,HQs,7,Hulu,1,Indiecacao,3,Into The Badlands,1,Inverso,1,iOS,2,Iron Heart,1,Iron Man,1,It: A Coisa,2,iZombie,1,J. R.R. Tolkien,1,J.K. Rowling,1,Jackaby,1,Jessica Jones,1,Joe Schreiber,1,jogos,16,Johnny Depp,1,Journey,1,Joyland,1,Jumanji,1,Justiceiro,1,Karen Alvares,2,KDP,1,Kindle,1,Kingdoms of Amalur,1,lançamentos,4,lancamentos-cinema,2,lancamentos-livros,7,Leandro Souza,1,LEGO,1,Leonardo DiCaprio,1,Life is Strange,2,Liga da Justiça,1,listas-series,1,Livros e HQs,63,Lobo da Estepe,1,Lost,1,Maníacos Por Comics,1,Marcas da Guerra,1,Marjane Satrapi,1,Maroon 5,1,Marvel,5,Maze Runner,1,Mestre Gil de Ham,1,Microcontos de Fadas,1,Mirror's Edge,1,mobile,3,Mr. Robot,1,Mulan,1,Mulher Maravilha,2,Mulheres,1,Música,6,musica-nerd,1,Mystery Box,1,Nancy Holder,1,Não Pare!,1,NerdJam,1,NerdLoot,1,NerdSpell,1,Netflix,7,Netflix vs Prioridades,1,News,53,Novembro de 63,3,Novo Conceito,1,Novo Século,1,O Despertar da Força,3,O Futuro Vem da Tinta,1,O Guia do Mochileiro das Galáxias,1,O Prisioneiro dos Daleks,1,O Último Desejo,1,O Último Gargalo de Gaia,1,Okami,1,Oscar,1,Overwatch,1,Parceria,9,Passengers,1,Paula Hawkings,1,PC,1,Penny Dreadful,1,Pennywise,2,Persépolis,1,Pipocando,1,Pixel,1,Playstation,9,Poeme-se,1,Pokémon GO,3,Por Enquanto,1,Porcelana,2,Preacher,2,Prêmio Nobel de Literatura,1,Promoções e Sorteios,5,Prova de Fogo,1,PS3,1,PS4,3,Punho de Ferro,1,Queen,1,Rami Malek,1,Resenhas,32,Resident Evil,1,Resident Evil VII,1,reviews-games,7,Revista Avessa,1,Revista Geeks,1,Revista TIME,1,Rick Riordan Magnus Chase,1,Riri Williams,1,Rocco,1,Rogue One,2,S.K. Treymane,1,Sailor Moon,1,Scott Pilgrim,1,Seguinte,1,Sense 8,1,Series e TV,48,Setembro Amarelo,1,Singularity,1,Sir James Matthew,1,Sony Pictures,2,Square Enix,1,Star Trek,1,Star Wars,9,Stephen King,7,Steppenwolf,1,Steven Universe,1,Stranger Things,1,Suma de Letras,1,Supergirl,3,Superman,1,TAG,1,Tech,4,Testes e Quizzes,4,The Beatles,1,The Darnish Girl,1,The Flash,7,The Game Awards,1,The Walking Dead,1,The Witcher,5,The Witcher III,2,Tim Burton,1,Toy Story,1,Trailers,13,Trevor Baxendale,1,Troopers da Morte,1,TV Show Time,1,Um Gato de Rua Chamado Bob,1,Única Editora,1,Valentina,1,Van Helsing,1,Vanessa Bencz,2,Vanquish,1,Vans,1,Voo Fantasma,1,VR,1,Warner,3,Wattpad,1,Wayne de Gotham,1,Wild Hunt,1,William Ritter,1,WMF Martins Fontes,1,Wonder Woman,1,Xbox,6,Xbox 360,1,Xbox One,1,XONE,1,Yangsze Choo,1,Yasmin Moraes,1,Yellow Submarine,1,Zumbeatles,1,
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